Bonecos “regressam” a Évora

Por em 25 de Outubro de 2017
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O Centro Dramático de Évora (Cendrev) já percorreu vários quilómetros para levar os Bonecos de Santo Aleixo a diversos pontos do país e do mundo. Estiveram no Festival Internacional de Marionetas do Porto para um dos últimos espectáculos do ano de 2017. A companhia teatral é proprietária das marionetas tradicionais de varão há cerca de 30 anos, sendo também responsável pela sua conservação e restauro. O espólio adquirido nos anos 80 ao mestre António Talhinhas, último proprietário, tem reunido interesse de especialistas internacionais. Porém, não consegue vingar dentro de portas.

“Olhamos para a investigação que foi feita sobre os Bonecos de Santo Aleixo e a maioria aparece escrita em inglês, francês ou espanhol”, diz José Russo, encenador e membro da direcção do Cendrev. Uma pequena pesquisa na Internet e verifica-se que os resultados vêm de fora do país: a “Enciclopédia Mundial de Teatro Contemporâneo”, de 2013, de Peter Nagy, Phillippe Rouyer e Don Rubin, tem uma referência aos bonecos alentejanos.

Talvez seja a primazia do interesse internacional face ao nacional que dificulte a precisão de quando e como os Bonecos de Santo Aleixo surgiram. Aos 61 anos, o também actor José Russo só consegue recordar os conhecimentos que lhe foram transmitidos, quando o Centro Dramático de Évora iniciou o processo de compra das marionetas ao mestre António Talhinhas.

Na altura, contaram com ajuda de um especialista, Alexandre Passos, que “fez um trabalho mais apurado em descobrir a origem dos bonecos”. “Não somos investigadores, somos actores e intervenientes no espectáculo. Não temos tempo, vocação e aptidões adequadas”, reconhece. Como todas as tradições, as marionetas de varão com cerca de 30 centímetros, manipuladas de baixo para cima, foram trabalhadas ao longo de várias gerações. Os primeiros bonecos terão surgido no século XIX, embora José Russo acredite que a inspiração terá começado um século antes. “Há referência a um padre em Vila Viçosa, concelho próximo de Évora, que terá utilizado as marionetas”.

O actual membro da direcção do Centro Dramático de Évora não esteve directamente envolvido no processo de passagem do espólio, mas afirma ao PÚBLICO que terá sido um momento doloroso para o anterior proprietário. O mestre recebeu propostas de alguns coleccionadores de marionetas para adquirirem parte do espólio das marionetas de Santo Aleixo. Mas este preferiu mantê-las no teatro e em actividade e não em casas estranhas, tal qual pai a zelar pelo futuro dos filhos.

António Talhinhas ainda trabalhou com o Cendrev, de forma a garantir que o repertório e a conservação daquelas marionetas não se perdessem no tempo. De geração em geração vieram as candeias de azeite que iluminam os espectáculos, os cenários pintados à mão, as roupas, o retábulo (o lugar de representação e o palco dos bonecos) feito em madeira, o repertório, a música portuguesa e muitas das personagens — as figuras bíblicas como Deus, Jesus, os irmãos Abel e Caim e Adão e Eva.

 

“Os Bonecos de Santo Aleixo mereciam ter outra atenção”

Desde a altura em que António Talhinhas recebeu cerca de 700 contos – hoje seriam 3500 euros – pelo espólio das marionetas tradicionais de varão, o panorama mudou muito no teatro e na cultura portuguesa, e as dificuldades também. Hoje, os Bonecos de Santo Aleixo são manipulados por cinco actores do Cendrev e mais um que acompanha o espectáculo com a guitarra portuguesa. Por ano, a companhia tem dezenas de espectáculos com as marionetas, dentro e fora de portas, mas o número não significa fartura.

“Podíamos ter este espectáculo todos os dias, mas só temos quando alguém nos pede, uma ou duas vezes. E mesmo assim, não conseguimos estar presentes em todas as ocasiões, porque muitos dos actores têm outros trabalhos”, explica o encenador do Centro Dramático de Évora. A precariedade registada no seio da companhia de teatro parte da falta de reconhecimento pelos Bonecos de Santo Aleixo e acaba nos orçamentos destinados à cultura.

O futuro poderá ser incerto, mas está alinhavado com aquilo que se esperava que fosse o destino dos Bonecos de Santo Aleixo: no seio de uma companhia teatral e a dar voz às figuras do Alentejo. O Cendrev já recebeu alunos universitários e de escolas performativas e com eles organizou oficinas de trabalho. O próximo desafio será manter as pessoas junto dos bonecos e profissionalizá-las de acordo com a tradição do teatro e do legado que lhes foi passado. “Implica trabalho como a fixação de textos. Não é em dez minutos que se aprende. É uma actividade profissional e tem-se dominar a técnica. Há um conjunto de elementos que é preciso saber fazer”, explica José Russo.

Os próximos espectáculos dos Bonecos de Santo Aleixo será na cidade que os acolheu, Évora, de 11 a 16 de Dezembro, com o repertório natalício. O palco será na Biblioteca Pública de Évora. O mestre Salas e o padre Chancas não vão faltar.

 

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