Mais de uma centena de investigadores centrados no Sul

Por em 15 de Junho de 2012

Hoje mais de uma centena de investigadores das ciências sociais e humanas encontram-se na Universidade de Évora para uma reunião anual em que dão conta dos temas, metodologias e orientações dos seus projectos.

Estes investigadores, enquadrados pelo CIDEHUS (Centro interdisciplinar de história, culturas e sociedades da Universidade de Évora), oriundos de diferentes áreas disciplinares e de diversos lugares do país (do Minho ao Algarve) têm em comum uma linha temática de fundo: O “Sul”. “No sentido do Sul de Portugal, do Sul da Europa, do hemisfério Sul, do diálogo Norte – Sul. É um Sul usado de uma forma metafórica” explica a Prof. Fernanda Olival, vice directora do CIDEHUS. O Sul é explorado por estes investigadores em três linhas diferenciadas: a primeira, a que reúne maior número de pessoas (54), centra-se nas dinâmicas sociais e políticas do Sul. A segunda debruça-se sobre a sua cultura material. E a terceira sobre a circulação da informação cientifica, – que se encontra nas bibliotecas e nos arquivos – sempre em torno do Sul.

Na ciência estamos a trabalhar bem

A propósito deste encontro no Palácio do Vimioso em Évora, sobre “Dinâmicas sociais e culturais em torno do mediterrâneo: pontes transdisciplinares”, a Prof. Fernanda Olival coordenadora da iniciativa, falou-nos desse Sul temático, das dificuldades de diálogo entre disciplinas e entre os investigadores e a comunidade não científica. Dos novos e prementes desafios que se colocam às unidades de investigação e às ciências sociais.

– As pontes transdisciplinares são um desejo ou uma realidade na investigação do CIDEHUS ?
Fernanda Olival – Na composição deste centro há muitas pessoas de História, e há também pessoas com formações muito heterogéneas: Filosofia, Psicologia, Sociologia, Literatura e Línguas, Informática e Demografia.
O diálogo interdisciplinar não é nada fácil. Mas consegue-se. Não é fácil porque não falamos necessariamente a mesma linguagem, não temos a mesma relação com o trabalho científico; mas hoje toda a ciência é cada vez mais interdisciplinar.

– É essa a principal razão deste encontro?
FO -A ideia aqui é aumentar o intercâmbio. Ou seja, temos pessoas que quando terminam um projecto ficam desgarradas e ao conhecerem o que os outros fazem conseguem-se reagrupamentos e partilhas interessantes e frutuosas.

– Mas há também do desafio do diálogo com a comunidade em geral, não cientifica. O CIDEHUS está empenhado nisso ?
FO- É evidente que a nós nos interessa muito o diálogo com a comunidade. Embora, de um modo geral, a comunidade académica não saiba muito bem dialogar, ou nem sempre saiba como consegui-lo da melhor forma.

– Falta-nos essa tradição?
FO- Sim, não há muito essa tradição. A comunidade por vezes espera dos cientistas sociais respostas que não podemos dar. Seja porque recorremos muito a dados estatísticos, ou porque nos preocupamos com problemas teóricos. Ás vezes esse tipo de realidades podem não interessar muito a comunidade. Mas outras vezes sim, conseguimos esse encontro. É o caso por exemplo da “Cultura a Sul”. É um projecto que promove um conjunto de conferências em diferentes lugares do Alentejo. Foram iniciativas muito interessantes e protagonizadas por muitos jovens investigadores. Mas há outros exemplos como os cursos livres. Agora estamos a promover um sobre a Inquisição em Portugal e Espanha.

– Há aqui a preocupação de ligação da investigação ao meio?
FO- Sim. Queremos aumentar os nossos elos com a comunidade. Mesmo admitindo não saber tratar isso sempre de forma mais adequada, continuamos a esforçar-nos.

– O que é que a comunidade do SUL pode esperar do CIDEHUS?
FO – Sobretudo temo-nos preocupado em disponibilizar dados. Um exemplo são as memórias paroquiais. Interessam a autarcas a geógrafos, demógrafos, às pessoas do planeamento. E já temos o Alentejo quase todo transcrito, embora muito do que temos ainda não esteja disponível no site do CIDEHUS.

-O que são as “Memórias Paroquiais”?
FO – É um inquérito que em 1758 foi enviado aos párocos. Foi organizado a partir de uma unidade muito pequena que é a freguesia. Perguntava quantos habitantes existiam, quem era o senhorio da terra , que estragos fez o sismo de 1755, quais eram as produções dominantes, que rios passavam por ali, que espécies de peixes existiam, etc. Em suma. Permitem uma traçar um quadro geral do país nesta data. Aqui está uma forma discreta de produzir recursos para a comunidade.
Depois ainda há o repositório científico onde estarão todos os trabalhos que não têm direitos de autor, publicados nos últimos anos.

– A investigação concentra toda a energia deste centro académico?
FO- Por um lado fazemos investigação; por outro o ensino; e por outro ainda a gestão académica. Mas cada vez mais as Universidades têm valorizado o lado da investigação. A própria avaliação tem incidido apenas sobre este aspecto, mesmo no caso dos docentes.

– O trabalho científico não reunia tradicionalmente, no nosso país, grandes condições de desenvolvimento. Isso está a mudar?
FO – Eu acho que nos últimos 20 anos se deu um salto muito grande. Portugal tem melhorado muitíssimo.
Nos últimos anos tem havido dinheiro e as pessoas têm podido ir a encontros internacionais e temos realizado encontros internacionais em Portugal. E aí verifica-se cada vez mais que usamos as mesmas metodologias e que já não há grandes diferenças na qualidade do trabalho produzido

– Mas continuam a soar alguns lamentos…
FO- Eu diria que o que é pior em Portugal, onde ainda se nota a diferença para pior, é no acesso à informação. Ou seja, as nossas Bibliotecas continuam a ser piores que as Bibliotecas dos Estados Unidos, por exemplo. É o problema do acesso à informação. Nós temos menos dinheiro para assinar bases de dados, para assinar revistas de especialidade. Claro que a net democratizou muito, mas não tudo. No entanto, melhoramos muito, insisto..

– Voltando ao CIDEHUS. Esta é uma unidade de Ciências Humanas e Sociais. Ora, essas têm sido o “parente pobre da ciência”.? Estes investigadores podem aspirar a verem o seu trabalho reconhecido?
FO- (risos ) Eu acho que sim.
Diria que continuamos a ser um pouco olhados como parentes pobres da ciência. Porque os tecnocratas querem sempre resultados a curto prazo e nas ciências sociais isso nem sempre se faz assim.
Claro que de modo geral há sempre menos dinheiro para as ciências sociais. Mas acho que nos últimos anos em Portugal em matéria de ciência se tem trabalhado bem.

– E o CIDEHUS acompanha essa tendência?
FO – Eu acho que as pessoas aqui têm produzido cientificamente bem. Há alguma disciplina no trabalho académico. Isso é muito importante porque hoje em dia não basta investigar apenas. É preciso produzir artigos para revistas internacionais de referência. Nas ciências sociais issa é uma tradição muito recente. Está a começar agora o sistema de avaliação dessas revistas.

– Tem uma perspectiva optimista.
Em que é que se apoia?
FO – Estamos numa fase de grande concorrência. Portugal tem centros a mais e obviamente só os melhores vão sobreviver.
O CIDEHUS pode considerar-se um centro jovem no panorama do que é a ciência em Portugal. Tem obtido boas avaliações. E penso que o Sul é um grande tema. Vivemos um momento em que o tema do Sul é particularmente relevante. Não se esqueça que a crise que vivemos é muito mais acutilante na Europa do Sul. Há que perceber porque é que estas sociedades estão periodicamente em crise. Este é um tema muito galvanizante.
Quanto ao financiamento, cada vez mais há-de ser Europeu. Portanto precisamos de ter projectos sempre mais claros e pertinentes para poder competir numa Europa que é cada vez mais concorrencial em termos de avaliação e de financiamento.

O Sul é um ponto de observação questionador

O Sul é apontado como o tema aglutinador de toda a investigação desenvolvida no CIDEHUS, uma unidade de investigação que existe há 18 anos com o propósito de promover projectos interdisciplinares no domínio das Ciências Humanas e Sociais. Mafalda Soares da Cunha, Professora da Universidade de Évora, especialista em História das elites sociais, é a Directora deste centro desde 2001. Pedimos-lhe que nos explicasse de forma é que o Sul inspira e acolhe o trabalho de mais de uma centena de investigadores, especialistas em várias disciplinas das ciências sociais, dos quais 40 doutorados. Números estes que vêm aumentando de ano para ano.

Do que é que falamos quando evocamos o Sul como tema comum a tantos e tão diferentes trabalhos de investigação?
MSC- O Sul é antes de mais uma orientação geográfica. Por isso é completamente dependente do lugar de onde se observa. Não é um ponto fixo. Se estivermos em Inglaterra ou no Minho o Alentejo é Sul; mas se estiver em Marrocos o Alentejo é Norte. Tem essa complexidade de abordagens, tem carácter prismático.

– Que sentido orientador traz o Sul para a investigação científica?
MSC – Faz todo o sentido utilizar um conceito a partir do qual se organize o conhecimento e a discussão do mesmo.
O principal sentido desta linha de investigação é, de certa forma, reactivo ao mundo contemporâneo. Porque as ciências humanas e sociais, como todas as outras ciências, existem num ambiente contemporâneo e por isso reflectem e projectam os problemas desse mundo contemporâneo.
Quando vemos que uma série de imagens são difundidas todos os dias nos países do Norte, hoje bem sucedidos economicamente face aos do Sul, compostas por estereótipos, cheios de clichés, de preconceitos, convém problematizar um pouco as questões e perguntar: Mas afinal haverá tantas diferenças? A vanguarda esteve sempre aí? Esses processos de hegemonização aconteceram quando? Em que momentos? Porquê?

– É um Sul que questiona?
MSC – É o Sul como ponto de observação inquisitivo, curioso e problematizador. Ou seja vamos avaliar, reviver, reelaborar e oferecer instrumentos para uma maior e melhor compreensão das realidades onde nos situamos.

– O Sul anda agora mais intensamente “nas bocas do mundo” …
MSC- Sim porque surgem outro tipo de questões como é o caso das Primaveras Árabes. Que envolvem um Sul Mediterrânico. A outra margem. Neste caso nós somos um bocadinho Norte, ou somos parte de um outro conjunto. Neste Sul existem cortes de conjuntos, cortes culturais, mas que são ao mesmo tempo linhas de comunicação que nos permitem olhar para as pontes a fazer. E as pontes são muitas vezes mais intensas do que as clivagens que também sempre existiram. A porosidade das fronteiras e as porosidades culturais são as mais esquecidas nesse afã de criar brancos e pretos, de criar muitos contrastes, ideias contrastáveis. Pretendem facilitar a compreensão do mundo, mas as coisas nunca são tão estanques assim.

Trata-se afinal do Sul onde nos encontramos…
MSC – Sem nos esquecermos de uma comunidade para onde queremos exportar conhecimento.

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