Empresa canadiana faz renascer a “fé” na corrida ao ouro no Alentejo

Por em 2 de Julho de 2012

É debaixo do balcão do pequeno café, que também serve de mercearia e ponto de encontro às gentes de Nossa Senhora da Boa Fé, que Margarida Banha guarda um “tesouro” herdado do pai. Trata-se de um pedaço de rocha extraído da vizinha Herdade da Chaminé, oferecido a José Francisco Banha por mineiros que “por aí andaram” à procura de ouro.

“Há muitos anos que a temos. Era do meu pai, ele já faleceu e eu guardei-a como uma coisa preciosa”. São uns veios dourados que fazem a pedra ser “preciosa”. Na aldeia acredita-se que será de rochas iguais a estas que um dia será extraído ouro. “Esperemos que sim, que isso finalmente aconteça. Era bom porque trazia mais clientes e mais movimento à terra”, diz Margarida Banha.

O sonho da existência de jazidas de ouro na Boa Fé e na vizinha freguesia de Escoural renasceu depois de a empresa canadiana Colt Resources ter anunciado em comunicado que os resultados das análises efetuadas às amostras de rocha recolhidas na vizinha Serra de Monfurado forneceram “graus de ouro impressionantes, perto da superfície”. Só dentro de algumas semanas é que a empresa disporá de uma estimativa inicial dos recursos existentes.

“Acho que em 2014 isto vai para a frente”, antevê Margarida, revelando que ao balcão do café Banha “quase todos os dias” serve “uma cervejinha” ao pessoal que anda no terreno contratado pela empresa mineira. “Andam a fazer medições para ver o que existe. Um dia destes até usaram um helicóptero”.

A dois passos dali, junto à igreja, pergunta-se pelos mineiros e a resposta surge pronta: “Quase todos os dias por aí passam, vamos lá a ver se é desta que a mina vai para a frente”, diz uma idosa, fazendo um pequeno intervalo na renda para assegurar que um projeto destes poderia ditar um novo futuro para a região. “Trabalho não há nenhum, isto está a morrer aos poucos”. Até a escola primária corre o risco de fechar, numa freguesia onde já não vivem mais de 320 pessoas.

De problemas idênticos também se queixa Duarte Luz, presidente da Junta de Freguesia de Escoural, garantindo que por enquanto é “mais certa a crise que o ouro”, apesar de estar convencido que “as coisas vão mesmo avançar”.

Há mais de 30 anos que a população das duas freguesias ouve falar na riqueza escondida debaixo do solo sem que a promessa do “eldorado” se traduza em benefícios para as populações. Durante este período realizaram-se diversas campanhas de prospeção que acabaram por não ter sequência.

“Vinham para cá, faziam furos e abalavam. Agora é diferente, parece-me que estes têm outra ânimo”, diz o autarca, revelando que até já foram criados alguns empregos pela empresa canadiana.

“Andam aqui cinco máquinas a perfurar e já criaram entre 10 e 15 postos de trabalho. Não são todos da freguesia mas pelo menos estes postos de trabalho já estão criados”, acrescenta Duarte Luz. “São pessoas que fazem a separação das rochas, metro a metro, para depois se analisar aquilo tudo e saber a que profundidade é que se encontra o minério. Há muito tempo que não se criavam tantos postos de trabalho na região”.

Para quem esteve a “carregar pedra” noutras campanhas de prospecção não é novidade que a corrida ao ouro da Serra de Monfurado tenha voltado a despertar atenções: “Ele está lá, tem é de ser ver quanto custa a tirar”. Nas ruas e cafés da Boa Fé e Escoural, a “fé” no ouro volta a renascer. “Fala-se em cem postos de trabalho. Mesmo que nos levem o ouro hão-de deixar por aí muita riqueza”, dispara o homem, acreditando que também ele poderá voltar a ter uma oportunidade: “Há mais de um ano que estou no desemprego”.

Período experimental com investimento de 3 milhões

Os trabalhos de prospeção atualmente em curso envolvem um investimento mínimo de 3 milhões de euros por parte das empresas Iberian Resources Portugal e Colt Resources, que assinaram um contrato de concessão com o Estado para a exploração experimental de depósitos minerais de ouro, prata cobre, chumbo e zinco em cerca de 4 mil e 600 hectares na sua quase totalidade localizados nas freguesias de Boa Fé, Nossa Senhora da Tourega, São Sebastião da Giesteira e Guadalupe (concelho de Évora) e Escoural (Montemor-o-Novo).

O período experimental tem o prazo de 3 anos. Caso a concessão de transforme em “definitiva” o Estado irá receber 4% do valor à boca da mina dos produtos mineiros ou concentrados, a título de “encargo de exploração”.

Pesquisa por todo o país

Há 185 processos de prospeção e pesquisa mineiras em curso em Portugal. Só este ano deram entrada na Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG) 45 novos pedidos. Muitos referem-se a minérios metálicos, cuja cotação disparou nos mercados internacionais.

“Os pedidos aumentaram muito nos últimos tempos, embora uma coisa seja a pesquisa e outra a abertura efetiva de minas que é [um investimento] a médio prazo”, diz o subdiretor geral de Energia e Geologia, Carlos Caxaria. “Os projetos lançados nos últimos anos têm-se revelado muito positivos e dentro de alguns anos teremos um setor mineiro quatro ou cinco vezes maior do que o atual”, perspetiva.

Um exemplo do interesse pela exploração dos recursos mineiros nacionais é a Colt Resources, que esta semana anunciou ter obtido “graus de ouro impressionantes perto da superfície” em amostras recolhidas na Boa Fé (Évora), onde já lhe foi atribuída a concessão por um período de 10 anos. A empresa canadiana continua à procura de ouro e outros minérios em vários pontos do país, tendo-lhe sido concedidas áreas de prospeção em Penedono, Santa Margarida do Sado, Borba e Armamar.

Ouro é também o que a Minaport – Minas de Portugal procura em Sarzedas (Castelo Branco) e em Barrancos, enquanto a Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM) está autorizada a fazê-lo nas antigas minas romanas de Limarinho, concelho de Boticas, onde há cinco anos os canadianos da Kernow Mining efetuaram perfurações e recolha de amostras.

“Muitos dos alvos de ouro de que hoje se fala já estavam identificados no passado. O que mudou foi a cotação, o preço tornou-se muito mais convidativo”, acrescenta Carlos Caxaria, considerando que a exploração de minério é “estratégica” para a economia nacional uma vez que fará crescer as exportações.

Além do outro, há empresas a pesquisar, cobre, volfrâmio, zinco, prata ou ferro. É o caso, por exemplo, da Companhia Portuguesa do Ferro que irá gastar um milhão de euros nos próximos três anos em prospeções numa área de 47 quilómetros quadrados na zona de Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta. Desativadas há 30 anos por falta de rentabilidade económica, as minas de Moncorvo guardam um dos maiores jazigos de ferro da Europa estando na “mira” da multinacional Rio Tinto.

Mais a Sul, em Castro Verde, a Somincor está a estudar um investimento de 160 milhões de euros na exploração de novas jazidas de cobre e zinco em Neves Corvo. A perspetiva é que a produção possa atingir 1,1 milhões de toneladas de minério de zinco por ano, o que tornaria Neves Corvo numa das maiores minas da Europa, e 500 mil toneladas de minério de cobre.

Sobre Luís Godinho

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