A tragédia da Política

Por em 21 de Fevereiro de 2013

Fazer política não é fácil…Nem em Portugal nem em qualquer parte do mundo. Pressupõe a gestão de prioridades, objectivos, consensos e expectativas, por vezes contraditórias, de diferentes agentes sociais. Mas, se como dizia Bem Okri, a política é a arte do possível, acho que deve também ser a arte de executar o que é definido, da estratégia à acção, aos resultados e ao impacto social.

Para se chegar aqui, os protagonistas políticos, especialmente os que estão no poder em funções executivas, têm de ultrapassar obstáculos incríveis, como as corporações de interesses instalados, as teias jurídico-legais que quase nada permitem mudar (tudo ou quase tudo corre o risco de ser inconstitucional!), e campanhas popularuchas, muito ao gosto dos media, que focam nos fait-divers e não permitem qualquer “tempo de antena” para o que é relevante, o que tem efectivamente substância.

Por cá, esta descrição assenta como uma luva e exemplos não faltam. Quando, há uns meses atrás, Álvaro Santos Pereira se atreveu a sugerir a exportação em larga escala do pastel de nata, logo as sumidades intelectuais aqui da paróquia se levantaram para ridicularizar um projecto desta natureza. Mas ninguém se deu ao trabalho de perceber os casos de sucesso destes que existem pelo mundo fora e perceber que 3 ou 4 grandes apostas deste género podiam ser fantásticas para o país (um português na África do Sul já faz o mesmo para o frango assado e não se queixa dos resultados).

Mas dou um segundo exemplo ainda mais paradigmático, diria mesmo uma novela tipicamente portuguesa. Tem-se discutido, nas últimas duas semanas, até à exaustão, o perfil de um Secretário de Estado (a pessoa). Contudo, no meio de tanta cacofonia, ainda não ouvi ninguém investir um minuto que fosse a debater as políticas respectivas de Empreendedorismo, Competitividade e Inovação que defende para Portugal (o conteúdo)! Esta é parte da razão para o estado a que chegámos. Quando é para discutir Pessoas, encontram-se logo milhares de especialistas, se for para discutir Políticas (que é o que importa) quase toda a gente assobia para o lado. Neste caso, quanto à questão da pessoa: não conheço Franquelim Alves, mas acho que ninguém pode ser estigmatizado por ter passado por determinado empresa ou grupo. O BPN tinha milhares de pessoas, centenas de dirigentes – conheço alguns, sérios e competentes. Recuso-me, como cidadão, a ter uma cultura de discriminação pura, com a injustiça a ela associada.

Em suma, esta é a “tragédia” que se coloca à política, na origem grega do termo – i.e. o conflito entre uma personagem bem-intencionada e algum poder de dimensão superior e a sua tentativa de remar contra as forças do destino. Se não conseguimos que o discurso e a acção política estejam orientados a factos, iniciativas e resultados, o descrédito abater-se-á sobre todos os seus protagonistas. Julgamentos de carácter e jogos retóricos, por muito divertidos e artísticos que sejam, nunca resolveram os problemas de ninguém.

 

Sobre Carlos Sezões

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