Abril, 40 anos

Por em 4 de Fevereiro de 2014

Quarenta anos. Há vidas que duram menos. Por isso e por ser um número “redondo” temos este ano uma especial atenção sobre a Revolução de Abril de 1974.

Das declarações já prestadas, dos eventos anunciados, das intervenções dos diversos órgãos de comunicação social, resulta uma ideia clara sobre aquilo que será uma tentativa de reescrever a história, de apropriação indevida de um momento de ruptura e da sua transformação em algo de consensual, de cores esbatidas pelo tempo.

Muito dessa estratégia revisionista passa por focar o interesse apenas numa das transformações essenciais da Revolução, a conquista da liberdade política, varrendo para debaixo do tapete da história todo o ideário transformador que aquele momento proporcionou.

Qualificar o regime anterior como “autoritário”, suportando essa qualificação em critérios “científicos” que permitam afastar a sua definição como uma ditadura fascista, é um primeiro passo para a desvalorização do significado da Revolução.

É preciso lembrar aquilo que Abril nos trouxe, para além dos valores maiores da liberdade e da paz, alargando a comparação entre um tempo sem liberdades políticas e cívicas e a explosão do pleno usufruto dessa liberdade.

É preciso lembrar que foi a Revolução de Abril que possibilitou avanços civilizacionais tão importantes como o estabelecimento do salário mínimo nacional, da generalização das férias pagas, de aumentos salariais que permitiram a muitas famílias a aquisição dos seus primeiros electrodomésticos, o estabelecimento de um serviço nacional de saúde universal e gratuito, as organizações populares de base que contribuíram decisivamente para o aumento da qualidade vida de muitas populações, a reforma agrária, o poder local democrático, a participação das organizações representativas de trabalhadores na gestão de fábricas e empresas, o aumento da escolaridade obrigatória e a construção de uma Escola Pública de qualidade para todos, entre muitos outros avanços negados pela própria essência da ditadura fascista, enquanto instrumento político de um sistema económico assente no capital monopolista.

Percebo que alguns não queiram comemorar os quarenta anos de Abril invocando os seus ideais, porque fazê-lo é confessar o seu esforço e empenho no regresso aos tempos em que, para a além da ausência da liberdade e da participação na guerra colonial, a maioria do povo vivia abaixo das suas necessidades para que uma ínfima minoria pudesse viver acima das suas possibilidades.

Percebo a dificuldade de alguns em comemorar Abril, quando o seu dia a dia é um imenso esforço para acabar com o serviço nacional de saúde, com a autonomia e o carácter democrático do poder local e com a escola pública.

Percebo que esses apenas queiram celebrar a liberdade política e cívica, ignorando que a liberdade a sério vem com a paz, o pão, a saúde, a educação e como diz o cantor só há liberdade a sério quando pertencer ao povo o que povo produzir.

Percebo melhor que todos nós queiramos transformar estas comemorações num acto de resistência, lembrando e invocando tudo o que foi conquistado e que trinta e oito anos de contra revolução não foram suficientes para destruir.

Comemoremos Abril em todas as suas dimensões não indo atrás de refazedores de história com o calendário trocado, que confundem a Primavera com o Outono e Abril com Novembro.

Comemoremos com os olhos postos no futuro, na luta para que os ideais de Abril se inscrevam no nosso devir colectivo.

 

 

Sobre Eduardo Luciano

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