Insensibilidade, legitimidade e moralidade

Por em 4 de Fevereiro de 2014

Quando temos algum familiar com uma doença terminal, em que não há mais condições para se restabelecer o seu estado de saúde, procuramos construir um estado de consciência para nos prepararmos para o fim da vida. Mas nunca estamos prontos para a fatalidade, e o choque acontece.

Faço aqui referência a esta metáfora soturna para descrever o estado de espirito de muitos funcionários da administração pública. Esta é uma análise empírica, mas que de certa forma faz uma aproximação à realidade. Por muito que esperassem por mais uma subtração nos seus vencimentos, nada mais violento que o embate gerado pelo pagamento dos salários neste mês janeiro. Um misto de revolta e de ausência de esperança salpicou os consagrados do costume.

Muito se tem falado sobre a legitimidade do governo para esta austeridade, fundamentalmente pela questão moral de fazer exatamente o contrário do que prometeu em campanha eleitoral. Sobre a legitimidade politica, não há dúvida que a tem. Ganhou as eleições e tem uma maioria que lhe confere a irrefutável legitimidade política. Porém, há também uma nuvem sobre a legitimidade moral que reside no facto de não fazer o que se comprometeu. Todos nós sabemos que nas campanhas eleitorais se prometem mundos, sonhos e paraísos. Se não fosse assim, não se ganhavam eleições. Passos Coelho prometeu não cortar salários, pois existiam outras vias. É aqui que se lhe pode imputar a falta de legitimidade moral pelo insidio que alimentou. Mas haverá algum governo que não tenha caído nesta tentação? Não há. E é aqui que reside uma outra questão ainda mais complexa, muito para além da imoralidade: a credibilidade. São estas estratégias de caça-voto que corroem a imagem duma certa classe politica e constroem uma representação social negativa e pouco abonatória. Não podemos cair na tentação de colocar todos no mesmo saco, pois em todas as classes há uns e outros.

Numa semana que confirma o desastre da investigação científica em Portugal, surge mais uma machada na esperança de milhares investigadores. Os resultados do concurso de bolsas de investigação da Fundação para a Ciência e Tecnologia colocam-nos ao nível de vinte anos atrás. O argumento da qualidade em detrimento da quantidade não cola. Há muito que está esgotado. É falacioso. Retira a esperança de fazer investigação em Portugal a milhares candidatos. Igualmente, confirma-se a morte das ciências sociais e humanas. O número de bolsas para esta área é residual e revela uma linha de coerência assente na insensibilidade social. É um facto.

Pensar em integrar investigadores em empresas é um disparate de todo o tamanho. Basta olhar para o nosso tecido empresarial, composto sobretudo por pequenas e médias empresas de dimensão familiar e que, culturalmente, procuram comprar serviços tipo chave na mão. Já perdemos tanto com a austeridade, que esta semana que passou, foi a golpada final para a esperança de muitos investigadores que vão partir e não tivemos capacidade para reter. Newton, Einstein, entre outros cientistas, não investigaram e produziram ciência enquanto trabalhadores de empresas e não foi por isso que não foram brilhantes. Às empresas o que é das empresas, e para a ciência o que é da ciência. Aqui não cabem casamentos de conveniência como no mundo da política.

Sobre Joaquim Fialho

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