Pingo de consumismo em tempo de austeridade

Por em 4 de Maio de 2012

Era feriado, dia do trabalhador. Se não fosse uma efeméride tão significante, diria que o mundo iria acabar. Assim pensei, quando vi rumaria de automóveis a uma cadeia de hipermercados.

Pensei, o mundo está a acabar e o comum dos mortais, tal como o carreiro de formigas, caminha para abastecer o seu lar e assim assegurar a sua sobrevivência face à catástrofe. Empurrões pelos corredores, brigas em prol dos carrinhos de transporte dos bens de consumo, prateleiras em estado caótico, horas na fila de espera, amontoados de compras nos comuns e nos inimagináveis meios de transporte de compras.

No meio de tudo isto, trabalhadores incansáveis da cadeia procuravam, dentro dos seus limites de espaço e de paciência, dar resposta à loucura do consumismo no dia do trabalhador.

Num ápice pensei! Mas este não é o país da austeridade? Das famílias endividadas? Do crédito malparado? Em que se vive acima das possibilidades? Face ao que via, talvez fosse um equívoco meu! Ou seria um dia terapêutico para fazermos catarse dos tempos consumistas do passado?

No meio do bulício ainda almejei ouvir uma referência aos valores do 1 de Maio. Inglório desejo. Transformou-se o simbolismo no expoente máximo do consumismo. Não condeno a iniciativa. É certa, e ajuda em tempos austeridade. Mas porquê neste dia? Não resultaria de igual forma num dia de fim-de-semana? Parece-me bem que sim.

Num contexto social em que muito se apela aos valores da solidariedade, respeito pelo outro, entreajuda, e fundamentalmente, à dignidade no trabalho, não compreendo a usurpação desta efeméride. Os valores do sindicalismo, progresso económico e social deveriam estar presentes neste dia, sustentados pelo respeito, e pela dignidade de quem se viu privado do feriado. Não é um feriado qualquer. Não é mais um dia de descanso. É um dia que deve ser reforçado e evocado.

Se hoje somos animais de consumo, devemo-lo à nossa incapacidade de travar os estímulos consumistas que nos atacam no quotidiano. É com facilidade que o acesso às iniciativas consumistas nos subverte. Nos torna impotentes face ao condicionalismo das iniciativas. Hipermercados, Bancos e outras entidades de crédito, Centros Comerciais, são alguns dos “lança-estímulos” consumistas. Se é certo que o país viveu durante muito tempo acima das suas possibilidades e que os portugueses não conseguiram dizer não facilitismo no acesso a bens e serviços, dias como este remetem-nos para um simples exercício. Será que já aprendemos alguma coisa com os erros do passado? Será que já mudámos os nossos hábitos de consumo. Creio que o caminho ainda é longo!

Afinal, 1 de Maio foi dia do Trabalhador, e nós mudámos ainda tão pouco!

 

Sobre Joaquim Fialho

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