Populismo? Não, obrigado!

Por em 26 de Março de 2013

O populismo, tão frequente em momentos de crise, é um dos maiores perigos para a democracia. De facto, a tentação de simplificar problemas complexos e de vender soluções fáceis e milagrosas como resposta ao dramatismo de alguns contextos históricos, provoca muitas vezes tragédias sociais e, não raras vezes, tem sido a génese de muitos totalitarismos.

O mais recente destes mitos populistas é a necessidade de fazer desaparecer as chamadas “classes políticas” actuais e substitui-las pela “vontade popular” (ou qualquer conceito similar). Beppe Grillo, cómico italiano convertido em político, com o inesperado resultado obtidos nas últimas eleições legislativas (um quarto dos votantes confiaram no seu Movimento Cinco Estrelas, elegendo 108 deputados e 54 senadores) é o mais recente arauto desta mensagem.

A escolha de candidatos a deputados por sorteio na internet, a promessa de uma democracia directa permanente, à distância e um click, a demagogia mais descarada, com propostas como a semana de trabalho de 20 horas foram suficientes para um score histórico e para provocar um terramoto político-social num dos países estruturantes da União Europeia. O estilo também não engana: a recusa em debater com os adversários (que despreza) e a suprema arrogância com que encara a normal dialéctica democrática, tornam-no mais próximo de um neo-fascismo que de uma eventual corrente libertadora de esquerda, contestatária das troikas, de Bruxelas e dos poderes instituídos.

Há muitos ”Beppe Grillos” por aí, porventura sem as qualidades artísticas e circenses do original. Não é por isso que a sua mensagem deixa de ser perigosa para quem preza os regimes democráticos.

O cerne da questão é a premissa (errada) com que estes movimentos partem para o debate político. Para estes novos demagogos, há um “nós” (o povo, puro, inocente, explorado e não responsabilizável pelas crises que se abateram por todo lado) e “eles” (a classe dos políticos, corrupta, incompetente, interesseira, à qual se devem todos os males). Qualquer pessoa de bom senso, que reflicta uns minutos, perceberá a falácia desta narrativa maniqueísta e “infantilizante”. Os ditos políticos provêm da sociedade, não foram gerados numa ilha distante nem chegaram cá numa nave espacial. Representam o melhor e o pior de cada sociedade e de cada nação, com as suas virtudes e os seus vícios. Se os mais incapazes chegam ao poder e por lá ficam muito tempo é porque, provavelmente, a sociedade é amorfa e não pratica uma cidadania saudável, com foco na informação e na participação activa. Quem fica no sofá em vez de votar, mobilizar os mais próximos para uma causa ou praticar algo que apoie a coesão social da sua comunidade, dificilmente terá moral para exigir que “eles” façam melhor.

Mas os partidos políticos tradicionais necessitam de mudar? Sem dúvida! Estão ainda bastante fechados sobre si próprios. Mas não é substituindo os partidos por movimentos cívicos ou populares que, por milagre, irá nascer uma classe dirigente impoluta e salvadora de todos nós.

Os processos de decisão e responsabilização são, em democracia, necessariamente complexos. Mas, prefiro ter essa complexidade e a necessidade de mudar constantemente, que uma nova cartilha de verdades absolutas e “seres iluminados”, que substitua as democracias por totalitarismos travestidos. Como dizia Karl Popper, “aqueles que nos prometem o paraíso na terra, não produzirão mais que um inferno.”

 

Sobre Carlos Sezões

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