Empreendedores de Beja lançam “FarmVille” com autênticos produtos hortícolas

Por em 31 de Maio de 2012

Gerir uma horta a partir de um apartamento é a proposta que um grupo de empreendedores de Beja se prepara para lançar num projecto experimental. O projecto chama-se MyFarm.com, por estratégia comercial. E qualquer semelhança com o popular jogo da internet FarmVille não é pura coincidência, apesar de não se tratar de um jogo mas de uma autêntica actividade agrícola.

A única diferença em relação à agricultura tradicional é que aqui será tudo gerido através da Internet por quem de outra forma dificilmente teria acesso a uma quinta ou a uma horta.

“Não gosto muito de comparar o nosso projecto com o FarmVille pois as pessoas pensam logo num jogo e isto não é um jogo, será uma uma horta real com produtos reais”, diz Luís Luz, professor do Instituto Politécnico de Beja que em Março lançou a um grupo de alunos de agronomia e ambiente o desafio de avançarem para a concretização de um projecto inovador capaz de criar emprego.

Nos encontros informais surgiram muitas ideias, tendo sido seleccionada esta. “Tive a sorte de reunir um grupo de alunos que quis participar nesta aventura, falou-se sobre eventuais ideias de negócio e optámos por esta porque devido às suas características inovadoras parece-nos ter mais condições de êxito”.

Ao aceder à sua página na Internet, o agricultor online vai poder escolher os produtos que pretende semear e o local da horta onde o quer fazer, tomar decisões ao nível do tratamento das culturas, utilização de produtos químicos ou produção biológica sem ser necessário sair de casa. “A horta é da pessoa. Nós damos o aconselhamento técnico e fazemos o trabalho de campo mas o nosso objectivo é que a pessoa sinta a horta como sua. As decisões, embora baseadas nos nossos conselhos, são sempre das pessoas”, explica Luís Luz.

Durante todo o período, o agricultor pode ainda acompanhar online o crescimento das plantas e decidir quando é a melhor altura de efectuar as colheitas. Depois é esperar que os produtos lhe sejam entregues em casa.

Logo na página inicial, os clientes terão a planta da sua horta e a indicação dos produtos que podem semear, consoante a época do ano. “Não haverá morangos no Inverno, as pessoas têm de se habituar à sazonalidade dos produtos agrícolas”, adverte o docente, licenciado em Engenharia Zootécnica e mestre em Sistemas de Informação Geográfica, acrescentando que nesta fase a ideia é “não avançar com grandes aventuras” em relação ao cabaz disponíveis.

A aposta vai para os produtos que as pessoas mais consomem no dia-a-dia, como batatas e vegetais. “Os mais exóticos também estão na nossa cabeça mas isso será numa fase posterior”. Todas as operações realizadas na parcela são igualmente gravadas e estarão disponíveis, pelo menos por 48 horas, para o caso de o cliente não as poder ver em tempo real.

Por agora, o projecto irá arrancar com 20 parcelas de terreno cedidas pelo Instituto Politécnico de Beja, sendo que as pré-inscrições deixam adivinhar que o número de interessados será bastante superior.

Uma vez testado, o projecto será alargado a cidades da península de Setúbal e da Grande Lisboa.

“Com os problemas de segurança alimentar que têm surgido, e em que o recente caso dos pepinos é um exemplo, esta é uma forma de as pessoas terem a garantia que os produtos da sua horta, produzidos de acordo com aquilo que elas decidiram, são aqueles que irão consumir”, garante Luís Luz. No fundo, trata-se de tornar real o “velho” sonho de muitas famílias citadinas em ter uma quinta, por pequena que seja.

Preço final idêntico ao dos hipermercados

Quando a horta estiver a produzir em pleno, o gestor da parcela passa a receber em casa, uma vez por semana, um cabaz com os produtos da sua própria exploração. O serviço custa 25 euros mensais por cliente, acrescido de um sistema de pontos – cada ponto vale 10 cêntimos – destinado a pagar despesas como o aluguer da parcela de terreno ou o serviço de entrega.

Além de gastar pontos, cada pessoa pode também ganhá-los. Basta, por exemplo, que dê uma ajudinha na altura da sementeira ou das colheitas, deslocando-se à sua própria horta para “meter a mão na terra”.

Luís Luz diz que as contas estão feitas. E, no final, os produtos hortícolas vão ficar com um preço idêntico ao que custaria a sua aquisição num hipermercado, com a vantagem de, desta forma, todo o processo produtivo ser controlado pelo consumidor final. ”Trata-se de um serviço inovador que aposta numa horta que é ao mesmo tempo virtual e real, a qual permite aos clientes o acesso a produtos escolhidos e produzidos especificamente para eles, num processo em que a produção e a qualidade podem ser sempre acompanhadas”.

Por uma questão de competitividade do preço-final, foi entretanto abandonada a ideia de instalar na zona de Beja toda a área produtiva, gerida a partir de qualquer ponto do país.

“Feitas as contas, entrega dos produtos a circular por todo o país iria encarecer bastante o serviço”. Assim, como a perspectiva é que seja “relativamente fácil encontrar terreno disponível na periferia das grandes cidades”, as hortas irão nascer mais próximo dos locais de residência dos agricultores “online”, o que poderá constituir um incentivo à sua participação nas tarefas agrícolas.

O próximo passo é a constituição formal da empresa que terá como sócios o professor Luís Luz e seis alunos do Instituto Politécnico de Beja: André Mira, Nelson Lopes, Raul Santos, Rodrigo Filipe, e Tiago Nunes, todos eles de Engenharia Agronómica, e Sara Biscaia, aluna de Engenharia do Ambiente. Depois é abrir a página na Internet, esperar pelas incrições dos clientes e começar a produção.

Sobre Luís Godinho

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