Sarsfield Cabral critica «ciclo vicioso» de austeridade

Por em 19 de Outubro de 2012

O jornalista e comentador Francisco Sarsfield Cabral diz que as medidas que o Governo português apresentou até agora para combater o défice apenas serviram para conduzir o país a um “ciclo vicioso” de austeridade.

Num comentário às novas medidas de austeridade apresentadas pelo executivo de Pedro Passos Coelho para o Orçamento de Estado de 2013, incluído na edição desta terça-feira do Semanário ECCLESIA, o especialista em assuntos económicos compara a situação de Portugal com a da Grécia, “que vai entrar no sexto ano de recessão”.

“Como o défice orçamental não desce o pretendido, carrega-se mais na austeridade; o que, por sua vez, agrava a recessão e limita as receitas dos impostos, impedindo o cumprimento das metas orçamentais; e assim sucessivamente”, sustenta.

O falhanço na “meta acordada com a troika” de reduzir “no corrente ano” o défice para “4,5% do Produto Interno Bruto (PIB)”, é segundo Francisco Sarsfield Cabral, o maior indicador de que as soluções preconizadas até agora estão longe de ter o alcance desejado e até começam a ter um efeito “contraproducente”.

“A austeridade também provocou uma forte subida do desemprego (que o Governo e a troika não esperavam que fosse tão grande) levando o Estado a gastar mais em subsídio de desemprego”, exemplifica o jornalista, que não antevê um cenário mais positivo em 2013.

“O défice sem medidas extraordinárias deverá ser de 6%, o que obriga a fazer em 2013 um esforço muito maior do que o inicialmente previsto”, aponta.

No entanto, na opinião do comentador, há alguns dados que podem dar esperança aos portugueses, como “a determinação do Governo português” em busca de recuperar a “confiança dos mercados na dívida soberana nacional”.

Os juros portugueses, pagos nas emissões e implícitos no mercado secundário (dívida já emitida), ainda estão acima do razoável; mas têm vindo a descer gradualmente. Se a tendência se mantiver, não será uma fantasia que Portugal regresse aos mercados em Setembro do próximo ano”, realça Francisco Sarsfield Cabral.

“Outro dado positivo, que passou largamente despercebido”, de acordo com especialista em assuntos económicos, foi o facto da Alemanha, pela voz da chanceler Angela Merkel, ter manifestado a intenção de “estimular o consumo interno para ajudar as exportações dos países do euro em dificuldades”.

“É a primeira vez que Merkel fala assim. Ora um ‘governo económico europeu’, de que tanto se fala, deverá começar exatamente por coordenar as políticas económicas dos Estados membros (pelo menos os da Zona Euro), de maneira a que os países que estão bem ajudem os que se debatem com problemas”, conclui o jornalista da Rádio Renascença.

Esta segunda-feira, na apresentação do Orçamento de Estado de 2013, o Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, manteve a sobretaxa de 4% no IRS e a redução daquele imposto de oito para cinco escalões de rendimentos.

Os escalões de IRS no próximo ano vão oscilar entre 14,5%, para rendimentos até sete mil euros anuais, e 48%, para rendimentos superiores a 80 mil euros, de acordo com a proposta entregue no Parlamento.

Segundo o cenário traçado pelo Governo, o país só deverá começar a recuperar em 2014, com o PIB a crescer 1,2% e a taxa de desemprego a recuar para 15,9%.

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