Risco de Seca

Por em 4 de Julho de 2021
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Relatório das Nações Unidas lança o aviso: a seca e a escassez de água estão na iminência de afectar o globo de forma sistémica. Entre 1998 e 2017, pelo menos 1,5 mil milhões de pessoas foram afectadas directamente pela seca.

Entre 1998 e 2017, pelo menos 1,5 mil milhões de pessoas foram afectadas directamente pela seca. MIKE HUTCHINGS/REUTERS

“A próxima pandemia” pode estar próxima e está camuflada: existe o risco iminente da seca e da escassez de água afectarem o globo de forma sistémica se os países não tomarem medidas urgentes sobre a gestão da água e dos solos para combater as alterações climáticas. O alerta foi dado pela ONU, num relatório que vai alimentar o debate na cimeira do clima da ONU (Cop26), a realizar-se em Novembro, em Glasgow.

Mami Mizutori, representante especial do Secretário-Geral para a Estratégia Internacional das Nações Unidas para a Redução de Desastres (UNDRR, na sigla inglesa) alertou que a “seca está na iminência de se tornar a próxima pandemia e não há vacinas que a curem”.

“As populações têm coexistido com a seca durante cinco mil anos”, mas “as actividades humanas estão a exacerbar a seca e a aumentar o seu impacto”, ameaçando destruir os progressos para a eliminação pobreza, reforçou Mizutori.

“Comparando com outros desastres naturais”, as secas tornam-se perigosas por serem “eventos mais prolongados”. Os seus impactos socioeconómicos e ambientais podem ser exacerbados, porque “podem durar décadas e afectar áreas desde bacias hidrográficas a centenas de milhares de quilómetros quadrados”, lê-se no documento.

O fenómeno é principalmente motivado pela mudança dos padrões da precipitação como resultado das alterações climáticas. Têm também impacto o uso ineficiente dos recursos de água; a degradação dos solos devido à agricultura intensiva e más práticas agrícolas; a desflorestação; o elevado uso de fertilizantes e pesticidas; o pasto intensivo e a elevada extracção de água para fins agrícolas.

Perto do “ponto de não retorno”

Com uma maior incidência no espaço e no tempo, “grande parte do mundo vai viver em situações de escassez de água nos próximos anos e a procura vai ultrapassar a oferta durante determinados períodos.” O relatório aponta ainda a seca como um dos principais factores “da degradação dos solos e do declínio da produção das principais colheitas”.

Outros impactos indirectos podem sentir-se através de crises alimentares, inflação dos bens alimentares, redução do fornecimento energético e pode piorar ou provocar agitação civil, conflitos e migração, refere o relatório.

Entre 1998 e 2017, pelo menos 1,5 mil milhões de pessoas foram afectadas directamente pela seca. Em termos económicos, estimou-se um impacto de aproximadamente 103 mil milhões de euros. Ainda assim, o verdadeiro custo deverá ser muito superior.

Os alertas globais mostram que a seca está a alastrar-se. Em especial, têm-se intensificado no Sul da Europa e na África Ocidental e os especialistas da ONU esperam que o fenómeno também seja mais frequente na América do Sul, na Ásia Central, no Sul da Austrália, nos México e nos EUA.

E o mundo está perto do “ponto de não retorno, disse à Fundação Thomson Reuters o secretário executivo da Convenção das Nações Unidas de combate à desertificação, Ibrahim Thiaw.

Segundo o relatório, até ao final do século apenas alguns países não vão sentir de alguma forma os efeitos do desastre natural. Num cenário de elevados valores de emissões de dióxido de carbono, cerca de 130 países podem ter um risco superior de enfrentar secas neste século, citou a ONU. Outros 23 países vão ser confrontados com escassez de água, devido ao crescimento da população, e 38 países podem ser afectados por ambos.

Mizutori apelou por isso aos governos para tomarem medidas para prevenir futuras secas, através da reforma e regulação da extracção, armazenamento e uso da água e da gestão dos solos. Para isso, acrescentou, trabalhar com os locais é fundamental, uma vez que o conhecimento dos habitantes pode informar onde e como armazenar a água e como prever os impactos dos períodos de seca.

Portugal regista índices de seca normal

No final do mês passado, 55,4% de Portugal continental estava em seca normal, 26,4% em seca fraca e 14,6% em seca moderada, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

A região sul de Portugal continental registou no final de Maio um aumento da área em seca meteorológica, com o Baixo Alentejo e o Algarve em situação de seca moderada e alguns locais em seca severa, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

De acordo com o índice meteorológico de seca (PDSI), no final de Maio verificou-se um aumento da área em seca meteorológica assim como da intensidade na região sul, face ao mês anterior. A região nordeste do território continental estava na classe de seca fraca.

No final do mês, 55,4% de Portugal continental estava em seca normal, 26,4% em seca fraca, 14,6% em seca moderada, 2,1% em chuva fraca e 1,5% em seca severa. O instituto classifica em nove classes o índice meteorológico de seca, que varia entre “chuva extrema” e “seca extrema”.

De acordo com o IPMA, existem quatro tipos de seca: meteorológica, agrícola, hidrológica e socioeconómica. A seca meteorológica está directamente ligada ao défice de precipitação, quando ocorre precipitação abaixo do que é normal.

Além do índice de seca, o Boletim Climatológico indica que o mês de Maio, em Portugal continental, classificou-se como quente e muito seco. Segundo os dados do relatório, o valor médio de temperatura média do ar, 16,20 graus Celsius, foi superior ao valor normal.

O valor médio de temperatura mínima do ar, 9,75 graus, foi o 3.º mais baixo desde 1931 (mais baixo em 2013: 8,84 graus). Quanto ao valor médio da temperatura máxima do ar (22,64 graus) foi superior ao valor normal (+ 1,68 graus).

O IPMA indica que durante o mês verificou-se alguma variabilidade dos valores médios diários de temperatura do ar em particular da média e máxima, realçando o período de 25 a 31 de Maio com valores médios no continente = 25 graus.

Segundo o boletim, o valor médio da quantidade de precipitação em Maio, 32,8 milímetros, foi inferior ao valor normal 1971-2000. Durante o mês verificou-se a ocorrência de precipitação entre os dias 9 e 13 em quase todo o território e nos dias 15 a 18 e 23 e 24 nas regiões do Norte e Centro.

“De salientar no dia 31 de Maio, na região nordeste do território, a ocorrência de aguaceiros fortes, queda de granizo e trovoada”, destaca o IPMA.

O menor valor da temperatura mínima foi registado nos dias 2 e 4 em Lamas de Mouro, Viana do Castelo (-2,2 graus) e o maior valor em Reguengos (Évora) no dia 29 e em Mirandela (Bragança) dia 31 com 35,1 graus.

Fonte: Público / Lusa

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