Che

Por em 25 de Abril de 2020
DR

Crónicas da Transtagana

Sob uma chuva miudinha, tão desejada por estas terras, castigadas pela seca longa e severa, chegámos a Ervidel, a meio do dia.

Dizemos à primeira pessoa que vimos na rua ao que vamos.

– Ah! O “Comandante” está no lagar.

Em Ervidel, José Leal é o “Che Guevara”.

– Há vinte e tal anos um amigo ofereceu-me um pequena medalha do “Che”, dizendo que eu era parecido com ele. Foi aí que tudo começou. Hoje tenho quase um museu, tantos são os objetos, como aquela fotografia do Alberto Korda e os livros que contam a história da Revolução Cubana, as viagens e o fim, quando foi assassinado, na Bolívia.

Muitas coisas foram os amigos que me ofereceram.

Comecei a interessar-me pelo seu pensamento, pelo marxismo-leninismo.

Li muitos livros sobre a sua vida.

Há coincidências. Nasci no mês e no ano em que ele foi assassinado…

Identifico-me com os valores defendidos por ele. Mas ser revolucionário no sentido de pegar numa arma? Não!

Eu preservo a paz. Não suporto as injustiças e os podres da sociedade. Mas um revolucionário é talvez mais irrequieto e impaciente. Eu sou só inconformado.

Na luta de Che Guevara, temos que perceber onde e em que circunstâncias aconteceram. Que resposta é que se dava ao povo espezinhado e despojado de tudo. Quando só resta a pobreza e arrancam a dignidade à pessoa, como fizeram os ditadores, estamos perante uma situação extrema.

Vejam, as FARC só acabaram há pouco tempo. Na Europa, tivemos o IRA na Irlanda, a ETA aqui em Espanha…

Eu tenho as minhas ideias, as minhas convicções, mas a paz no mundo e o respeito pelos povos é o que está certo.

Quedamo-nos a ouvir a voz pausada do “Che” num murmúrio meditativo, quase inaudível:

– Ernesto Guevara de La Serna… assassinado…

Agora morreu outro grande homem. Um lutador: o Zé Mário Branco.

Sabem? Foi ele que em Paris trabalhou na produção da Grândola Vila Morena, com o Zeca.

Já ouviram a Grândola? Escutaram aquele arrastar dos pés, foi ideia do Zé Mário Branco. É como o passo do cante (Alentejano). Arrepia.

A vida é uma batalha, permanente. Já fiz olaria. Tive um grande mestre, Herculano Elias, um dos mais importantes ceramistas das Caldas da Rainha.

Estive lá no Centro de Formação Profissional para a Indústria Cerâmica.

Mas eu sinto-me bem é no campo.

Olhem, outra coincidência, as ervas…“oh erva cidreira que estás no alpendre… mais a folha pende…” há ervas boas para tudo, para chás, para curar feridas… Che Guevara usava a “erva-mate” por causa da asma.

Agora ando no campo a trabalhar. Estou a fazer a campanha da azeitona. Ando a varejar, que ainda há por aí azeitona fora do olival de regadio.

As mãos estão calejadas do varejo.

O corpo franzino e a semelhança com “Ché Guevara” enchem o Lagar.

Com movimentos precisos abre a portinhola da caldeira, volteia o baseado, avalia  a força do lume, eleva uma braçada de lenha à ilharga e lança-a na fogueira, protegendo-se da baforada que sai impelida pelo impacto da lenha nas brasas, desviando o rosto para fora do seu alcance.

Quem passa vai cumprimentando:

– “Ché”, como vai isso?

– “Comandante”, hoje és lagareiro?

– É verdade. Estou a “afinar” o azeite.

Responde e explica o trabalho de demonstração que está a ser executado no lagar durante o evento “Vin&Cultura”. (1)

A azeitona que chega em sacos de serapilheira vai para o trilho de madeira para a separar das folhas e dos pequenos ramos de oliveira.

Despojada desses restos, inicia uma viagem para o tegão, puxada pelo sem-fim.

As mós de granito, com um movimento lento e pesado induzido pelo engenho de largas correias, reduzem-na a uma pasta que é serpenteada a “banho maria”.

Fazem o enceramento dos capachos com aquela massa de azeitona moída que segue para as prensas.

O azeite toma o mesmo caminho desta, enquanto os capachos são sacudidos do bagaço, para regressarem a novo enceramento.

“El comandante” tem também a missão de separar a água do azeite, que ocupam o mesmo depósito, sem contudo se misturarem, pois é isso da sua condição.

O decante e a afinação têm lugar numa área delimitada, a uma quota mais baixa, junto da caldeira.

Um fio de água quente cai, permanentemente, para um recipiente, donde se vão retirando impurezas e separando as “águas russas” do azeite.

– Aqui é feita a decantação do azeite. Purga-se da água russa. É preciso paciência para o afinar em condições, diz-nos “Che” enquanto espreita a caldeira, onde aquece o pão para a tiborna.

A tiborna – pão, azeite, açúcar amarelo e uma pitada de sal – é partilhada com os seus companheiros Filipe e Joaquim e com Cristina Lopes (2).

Com o fumo do charuto elevam-se o mito e o silêncio.

A frase soa com naturalidade:

– Sinto-me bem. Sou feliz assim. Sabe a canção do Zeca: “Tenho mais de mil amigos…

Aqui não me sinto só…”

(1) “Vin&Cultura” … é um evento onde se descobre o néctar de cada talha e as adegas da aldeia abrem as suas portas para dar a conhecer o vinho produzido em Ervidel.

Este vinho concebido de forma artesanal, ou seja, em talha de barro, é muito conhecido na região e recomendado pelos apreciadores…

No antigo lagar, os visitantes podem ver o modo artesanal de produção de azeite, que nestes dias mostrará a laboração de um lagar antigo.

Esta feira é promovida pela Câmara de Aljustrel com o apoio da Junta de Freguesia de Ervidel, produtores e movimento associativo.

(2) – Presidente da Junta de Freguesia de Ervidel. A demonstração feita no lagar é da responsabilidade da autarquia.

Texto: José Manuel Pinto

Fotos – Florbela Vitorino

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