Ana Fialho

Por em 25 de Março de 2020
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O ensino da Contabilidade e o exercício da profissão: desafios e oportunidades

Dinâmicas da Gestão

A afirmação do Contabilista Certificado como profissão de interesse público; o contributo dos Contabilistas na recuperação económica do país; a crescente ligação entre a fiscalidade e a contabilidade; as relações entre a Ordem dos Contabilistas Certificados (OCC) e a comunidade dos PALOPS; o envelhecimento da profissão e os novos desafios na era digital, foram algumas das questões abordadas pela atual Bastonária da Ordem, Paula Franco, perante uma plateia repleta de estudantes de Gestão e de Economia da Universidade de Évora, numa Aula Aberta do Departamento de Gestão, ocorrida no passado mês de Fevereiro.

A importância e a responsabilidade do Contabilista no alcance de “contas certas”, quer no setor privado, quer no setor público é hoje reconhecida por todos, afirmou a Bastonária durante a sua intervenção. Este reconhecimento afirma a profissão como sendo uma profissão de utilidade e interesse público na sociedade atual e, consequentemente, decisiva para a recuperação económica do país.

A necessidade do atual contabilista ter um forte domínio da fiscalidade, sendo esta competência muito valorizada pelo mercado de trabalho, foi outro dos temas tratado pela Bastonária. Tanto as PME (Pequenas e Médias Empresas) como as grandes empresas reconhecem a importância do planeamento e da gestão fiscal, tornando-se, a aposta em profissionais bem preparados nestas áreas, crucial para o seu desempenho. Aos futuros profissionais continuará a ser exigido um investimento na formação em fiscalidade a par da formação em vários domínios da contabilidade. Contudo, a Bastonária desmitificou algumas das atuais dificuldades no acesso à profissão, anunciando a entrada em vigor, para breve, do novo regulamento de acesso à profissão.

Nos últimos anos, a OCC exigia aos licenciados das áreas de Economia, Gestão e afins formação pós-graduada que lhes facultasse competências nas áreas de contabilidade, financeira e de gestão, fiscalidade, direito, finanças, ética e deontologia profissional, entre outras. As exigências implicavam a frequência de cursos de pós-graduação e de mestrado na área da Contabilidade, dado que estas impunham aos candidatos à ordem que fizessem prova da obtenção de aproveitamento em várias disciplinas que, no seu total, implicavam realizar estudos por mais um ano letivo, especificamente para o efeito.

A alteração ao regulamento da OCC vai ao encontro da ideia em debate pelo atual Governo de redução do poder das Ordens profissionais, que, apesar de ter sido uma medida proposta pela Troika, não se concretizou até ao momento. De acordo com um relatório da Autoridade da Concorrência (AdC) existe um excessivo poder das Ordens, nomeadamente no que respeita à formação académica exigida, no acesso às profissões reguladas. As restrições impostas no acesso a determinadas profissões, conduzirá, no futuro, a uma redução do número de profissionais no mercado de trabalho, com tudo o que isso implica. No caso da OCC esta realidade tornou premente a alteração do regulamento no sentido de se aliviar as atuais exigências no que respeita à formação académica exigida, passando estas a incidir exclusivamente nas áreas da fiscalidade, contabilidade financeira e analítica.

O ensino superior tem que enfrentar os desafios resultantes das necessidades de formação específica em contabilidade e fiscalidade, esta última uma área fundamental, mas, simultaneamente, com carências significativas ao nível de Doutorados que garantam não só o ensino universitário destas matérias como também o desenvolvimento de investigação que consolide a afirmação desta área do conhecimento como ciência.

Outro dos atuais desafios e também oportunidade é o estreitamento das relações com os países de língua oficial portuguesa (PALOP’s). Neste sentido, a Bastonária informou a plateia da recente criação da União dos Contabilistas e Auditores de Língua Portuguesa (UCALP), um passo muito importante na construção de um projeto conjunto que visa a colaboração entre os profissionais dos diferentes países. Também, neste âmbito, se abrem oportunidades nomeadamente aos estudantes internacionais provenientes dos países membros deste novo organismo.

Os desafios da era digital e o envelhecimento da profissão criarão condições para que esta seja uma escolha profissional com garantias de empregabilidade. Os jovens recém-licenciados tem hoje competências que os colocam em posição muito privilegiada na abordagem às novas tecnologias e, por isso, mais aptos a ultrapassarem aqueles desafios. O acelerado envelhecimento da profissão cria também uma oportunidade ao ingresso na profissão dos mais jovens, foi ainda sublinhado durante a Aula Aberta pela Bastonária da OCC.

Em suma, colocam-se novos desafios, quer ao nível do ensino da contabilidade, quer do exercício da profissão, e novas oportunidades aos recém-licenciados que optem por esta profissão. Os mitos em torno da substituição das tarefas outrora desenvolvidas pelo contabilista por sistemas informáticos, e a crescente necessidade do domínio das ferramentas informáticas, impõem uma mudança de atitude que começa no ensino e termina no exercício da profissão no seu dia-a-dia.

Dinâmicas da Gestão
Ana Fialho

Departamento de Gestão e CEFAGE, Universidade de Évora

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