Sónia Ramos

Por em 8 de Março de 2022
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E se a Rússia fosse liderada por uma mulher?

Dia Internacional da Mulher. Para tantos, um dia obscenamente ridículo e dispensável, sem nenhum sentido. Um dia conotado com flores e jantares de amigas (também faz parte). Para tantos um dia fútil. De facto, para os muitos que ignoram a evolução do  papel da mulher na sociedade e desconhecem a luta pela igualdade de direitos, para quem o conceito de sociedade patriarcal nada suscita, o dia da mulher não tem especial significado.

Para quem o salário não é diminuído em função do sexo, em 14%, como sucede em Portugal, para quem é privilegiado pela entidade patronal face à improbabilidade de uma licença para assistência a descendentes, para todos aqueles que conseguem aceder a circuitos elitistas, fechados e reservados a certas linhagens, que negam a discriminação e o machismo, para esses a efeméride é uma chacota.

Para os que negam a subalternização da mulher ao longo dos séculos, e ainda hoje, para aqueles que escarnam do crime de violência doméstica e acham que o assédio sexual em contexto de trabalho é um elogio, para os que entendem que a violação rima com provocação, porque a culpa é dela, o dia da mulher é um desperdício.

Hoje, as inúmeras e complexas formas de que se reveste o domínio masculino são bem diferentes das conhecidas há décadas atrás ou ao longo dos séculos. A subtileza e o subterfúgio imperam demasiadas vezes. O cavalheirismo, embora em desuso, assume a teatralidade necessária para encobrir a subjugação. Na intimidade, na profissão ou na política. Na política, o requinte da relação de poder, sempre desequilibrada, é apurado. A tentativa de atropelo no uso da palavra, a condescendência ocular e corporal, o desdém ostensivo, a insinuação de não pertencer ao clube e a sistemática invalidação  de um qualquer raciocínio, para depois se dizer o mesmo por outras palavras são alguns dos exemplos da permanente tensão de domínio.

Mas este ano, o dia da mulher, infelizmente, acontece num cenário dramático. Em contexto de guerra faz sentido falar do dia internacional da Mulher? Se faz! Porque são os direitos humanos das mulheres que são violentados e quantas vezes de forma silenciosa. De facto, o abuso na relação de poder é tanto maior quanto mais silencioso. A violação em cenários de guerra é disso exemplo. É um crime tão hediondo quanto atual, porque usa o corpo da mulher e das raparigas enquanto arma e despojos de guerra, legitimamente aceite pela comunidade internacional, pelo menos até 1992, quando a violação generalizada de mulheres na ex-Jugoslávia chamou a atenção do Conselho de Segurança da ONU, para a sua constituição como crime internacional.

No Ruanda, entre 100 mil e 250 mil mulheres foram violadas durante o genocídio de 1994, mais de 60 mil durante a guerra civil na Serra Leoa (1991-2002), mais de 40 mil na Libéria (1989-2003), cerca de 60 mil na ex-Jugoslávia (1992-1995) e pelo menos 200 mil na República Democrática do Congo desde 1998. Mesmo após o término do conflito, os impactos da violência sexual persistem, incluindo gravidezes indesejadas, infeções sexualmente transmissíveis e estigmatização no seio da comunidade. A própria violência sexual tende a continuar, ou mesmo a aumentar, após o conflito, em consequência da insegurança e da impunidade dos perpetradores.

Tem sido longo o caminho da emancipação. Mas está distante da igualdade. E falar de igualdade é falar de direitos humanos, de dignidade humana, do sinal humano que assiste a todos e a cada um de nós. É ter o direito a decidir, a liberdade de dizer “não”, o direito à autodeterminação. O direito a ter direito! O direito à mesma oportunidade, à palavra e à opinião.

A política, para a generalidade das pessoas, é um clube de admissão reservada,  interdito ao sexo “fraco”, porque a estratégia e a arte da guerra são pergaminhos da virilidade. Que podemos nós, mulheres, acrescentar?

Alguns estudos académicos revelam que quando a mulher ascende à liderança tende a imitar os padrões instituídos pelas lideranças masculinas. Mas já temos alguns exemplos europeus de lideranças femininas estruturadas em padrões de género e que rompem com a tradição, baseadas nas softskills.

Não sei se a Rússia fosse liderada por uma mulher tinha invadido a Ucrânia. Sei que teria pensado duas vezes antes de mandar os seus filhos para a guerra. 

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