“Há pessoas que sabem e não fazem nada”

Por em 14 de Outubro de 2011

Amália Oliveira explica as razões do protesto.

Como é que surgiu a ideia de organizar este protesto?
Foi na passada sexta-feira e num grupo onde se encontravam várias mulheres. Estávamos numa pequena festa e, nem sei bem como, surgiu a conversa sobre o acórdão do Tribunal da Relação de Évora que reduziu a pena a um homem acusado de violência doméstica. Começámos a falar do assunto e decidimos que a coisa não podia ficar assim, tínhamos de protestar de alguma forma.

É um tema que vos interessa de forma particular?
Sim e não. Não há ninguém no grupo que sofra de violência doméstica mas é um tema que nos interessa. Soubemos do conteúdo da decisão e na conversa decidiu-se avançar com esta protesto, depois também com a ajuda do Facebook.

Em todo o caso, quer a Amália Oliveira quer outras mulheres do grupo já têm tido intervenções cívicas?
Um protesto como este, frente a um tribunal, nunca tínhamos organizado. Mas entre nós temos intervenção cívica em vários níveis. Eu, por exemplo, no Bloco de Esquerda, a Alexandra [Espiridião] nas plataformas culturais, e por aí fora.

Acha que existe complacência para com este tipo de crime?
A sociedade continua a ser complacente com a violência doméstica. Apesar de ser um crime público, a maior parte das pessoas não tem coragem de a denunciar, ainda está instituído na cabeça de muita gente que entre marido e mulher não se mete a colher.

Isso ainda está instituído?
Ainda, ainda. Posso dar-lhe um exemplo muito concreto: fui testemunha de um caso de violência doméstica e fui a única pessoa da rua inteira a ter a coragem de telefonar [para denunciar a situação]. Toda a gente na rua sabia mas só eu é que dei a cara. Há imensos casos desses, de pessoas que sabem que o vizinho bate na mulher ou nos filhos e fazem de conta que não se passa nada, não fazem nada.

Como é que se muda esse tipo de mentalidade?
A nossa acção ajudou a alertar para estes casos e a motivar as pessoas para se envolverem. Por vezes quando conto o caso que conheço e do qual fui testemunha há sempre alguém que sabe de outro caso semelhante mas que se fica pela conversa de café.

Também não é fácil as vítimas apresentarem queixa?
Pois não. Por um lado porque existe esse sentimento de impunidade dos agressores, de que a Justiça não funciona, por outro porque há mulheres que têm vergonha de dizer que foram agredidas numa relação que era suposto ser de amor. É-lhes até difícil assumir essa situação perante as próprias famílias.

Sobre Luís Godinho

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