O vazio da Esquerda

Por em 14 de Setembro de 2012

Nunca me considerei um fundamentalista em termos de posicionamento e ideologia política e acho que todas a áreas de pensamento têm contributos válidos para o nosso progresso social.

Pessoalmente, acredito numa sociedade cujos consensos sejam gerados numa democracia representativa e em que os princípios da responsabilidade, liberdade individual, mérito e igualdade de oportunidades sejam os pilares da nossa vida comum. Prefiro, convictamente, a liberdade à “igualdade forçada”.

Nunca gostei de ver o Estado, com a sua sobranceria e omnipresença ineficiente, substituir as decisões e espaço de liberdade da sociedade civil. Mas sempre defendi a garantia de uma rede de apoio de serviços públicos globais (da defesa, à segurança, passando pela justiça, educação e saúde) e mecanismos de apoio excepcionais para quem, por motivos vários, ficou sem as condições para uma vida condigna. Provavelmente, poderão catalogar-me algures no centro-direita… e posso assumir isso com toda a naturalidade.

Feita a minha declaração de interesses, não consigo deixar de expressar a profunda desilusão com o estado da Esquerda, em Portugal, na Europa e no Mundo. Desde há 20 anos, que se assiste a um afastamento da esquerda da realidade e a uma cristalização de ideias e preconceitos, sem grande aderência aos problemas das sociedades actuais. Se a queda do muro de Berlim e das ditaduras marxistas-leninistas foram o toque de finados do comunismo, esperava-se que o socialismo democrático acrescentasse algum valor aos processos de debate e decisão política. Nada de mais errado.

Continua-se com o paradigma da velha divisão de classes, entre trabalhadores e patrões, defende-se um modelo social insustentável, com muitas regalias e quase sem deveres, faz-se a demonização dos mais ricos e clama-se por riqueza para distribuir – não pensando que, primeiro, ela tem de ser criada pela economia. Defende-se um mercado de trabalho rígido e estagnado, em que ninguém pode ser despedido. Defende-se um Estado intocável, em que se valoriza mais as enormes estruturas criadas do que o real valor que é produzido para a sociedade. Pede-se investimento público apenas “porque sim”, sem ter em conta para que servirá.

Existem dívidas públicas para serem pagas e a esquerda finge que tal não existe – talvez por má consciência de como essa enorme dívida foi gerada. Se a crise financeira de 2008 parecia, à primeira vista, uma oportunidade legítima de renascimento da esquerda, tal desvaneceu-se rapidamente.

Na actualidade, a crítica radical e vazia contra os “mercados” é a grande marca da esquerda europeia. Os políticos socialistas pouco ou nada dizem sobre a alternativa à economia e sociedades actuais. De Portugal à Espanha, da França à Itália, é a ausência completa de ideias.

Pede-se “crescimento” com a mesma ingenuidade com que uma tribo primitiva clama pela chuva. Os partidos de esquerda, com a sua rede de interesses (clientelas, sindicatos, pseudo-elites culturais) são os “novos conservadores” – apenas pedem que nada mude ou que o mundo que conheceram há décadas atrás seja resgatado.

Acontece que o mundo mudou, quer gostemos ou não: as novas tecnologias, a inovação, a globalização, a (legítima) ascensão da qualidade de vida do terceiro mundo, a secundarização do papel da Europa, os desafios ambientais, as aspirações sociais de mobilidade tornaram-nos um mundo mais incerto mas também mais desafiante – e que não pode ser enfrentado com as premissas e as receitas do passado.

Votos de que as várias “esquerdas”, globalmente, se possam transformar e ser novamente actores positivos e válidos – abraçando novas causas (ex. a solidariedade, a sustentabilidade ambiental, a inovação social) e trazendo as alternativas que todas as sociedades saudáveis precisam.

 

Sobre Carlos Sezões

Deixar um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.